Voce estava ótimo…


zeze vamp
Zezé Macedo no final dos anos 60.

Zezé Macedo morava na mesma rua que eu morava na Tijuca. Às vezes pegávamos o mesmo ônibus 409 para o Jardim Botânico. Eu estava no meu caminho para a Escola de Artes Visuais do Parque Lage e ela, provavelmente, para as empresas de comunicação da Globo.

Ela era famosa. Porém as pessoas evitavam falar com ela. Ela distinguia-se facilmente do povo dali, muito pequena, magérrima, sempre em roupas pretas com um acessório destoante, como um anel grandão, óculos de sol ou uma bolsa fantástica. A arte vamp não caía fora do seu estilo de moda e eu a admirava muito por isso.

Ela teve uma história muito triste, o bebê dela morreu e ela ficou muda um tempão depois disso. A crianca sofreu fratura do crânio após ter caído do colo da sogra dela. Conjecturas passam pela minha cabeça sobre esse acidente. Podem ter jogado a criança na frente da adolescente Macedo, que não pode fazer nada e ainda passou a vida se sentindo culpada. A Zezé Macedo engravidou com 16 anos de idade, isso explica em parte a sua estatura, parando de crescer por causa da gestação. Com o seu relacionamento desmantelado, passou a dar mais atenção aos estudos, muito diferentemente de boa parte das mulheres contemporâneas de sua época. Logo se empregou,  erguendo uma carreira dentro da cadeira de letras.

Fiquei sem falar com ela nas ocasiões que passava pelo ponto da barão de Pirassununga. E depois de um tempo ela morreu. Eu acho que eu pensava assim: “da próxima vez, quando eu tiver uma coisa melhor para dizer …” Isso foi o meu segundo erro. O meu primeiro erro foi com a Branca de Neve.

Na semana de inauguração do Shopping Rio Sul em 1979 meu pai me levou lá pra gente dar uma passeada. Eu vi uma peca num dos corredores do terceiro andar e eu achei a performance da Branca de Neve fabulosa. Meu pai estava comigo e ele disse que eu deveria dizer isso para a atriz, que ela iria adorar. Não consegui, morria de medo, o medo era mais forte do que eu, tentei me aproximar várias vezes dela… Logo, meu pai desistiu de me incentivar e eu desisti de mim mesma. Nunca mais me perdoei por isso, deixei de dizer pra moca que ela tinha sido a melhor Branca de Neve que havia visto na minha vida.

Uma coisa que nos meus 5 anos de idade eu já estava bem acostumada era ir ver pecas infantis. Eu adorava. Quanto mais próximo aos contos dos Irmãos Grimm e dos de Andersen, estava bom pra mim.

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Chorando… de novo?!

Porém, odiava palhaços e suas bolas – as vezes era só o que tinha. Eu não os entendia, as outras crianças não os entendiam e quando há barulhos de pum, só os meninos nojentos que riam. Outro adendo sobre palhaços, que não pode deixar de ser comentado, é aquela série de perguntas de quem a criança gosta mais: “- È do papai, do vovô, da mamãe, da titia… ” e assim ia. Que ódio inominável que eu tenho dessa raça e mais desse tipo de pergunta. Até o dia que quando um desses me perguntou isso, eu simplesmente respondi:

– Caramba, que saco!

Vai dar uma de Marina Abramović noutro lado, meu filho. Eu não falava isso, mas agora falaria. Toda vez que aparece algo dessa mulher não há outra associação que consiga fazer, ela é uma palhaça. Na falta de se comunicar ou criar algo belo, ela vive desse jogo de interpelar o espectador se ele carrega consigo emoção, amor, sentimento, etc.. Isso é um jogo sujo. Todo mundo tem em graus diferentes. Eu não sei se os entusiastas da Marina já ficaram emocionados com uma peca infantil ou uma música de 3 minutos e 2 acordes – eu já.

Esse lance do Rio Sul como em outros já justificados nesses testículos que de uma maneira ou de outra arquivo memórias, fez com que eu NÃO COMETESSE MAIS ESSE ABSURDO de não falar pra o meu semelhante que ele fez bem.

Na verdade passou muito tempo pra eu começar por em prática isso, um dia simplesmente eu acordei e fui correr atrás do uso dessa filosofia. Fiquei sabendo que quando tem festival de Rock no Rio, várias divindades de bandas sentavam naqueles restaurantes caros e ruins da praia de Copacabana. Na primeira vez que lá fui, depois do trabalho, não é que encontrei o pessoal do Urge Overkill.

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Urge Overkill

–       Demais a banda de vocês, heim.

Os caras pagaram um Hi-fi pra mim, chamei eles para nos encontrarmos na Dr. Smith no sábado, mas eles pipocaram. Que mancada.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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