Priscila, a psicóloga


Nokas
O filme Nokas de 2010

Há exatos 10 anos atrás, no dia 5 de abril de 2004, em frente a catedral de Stavanger, o banco foi roubado. O caso ficou conhecido como Nokas. Nokas seria a seguradora que toma conta do valor que a cidade recolhe no que ganha com a exploração de petróleo. Isso rendeu um filme, que pega conteúdo das ações, erros e elaborações dos bandidos que eram de diferentes partes do mundo.

Nesse mesmo dia de abril eu havia ido passear com a Katarina na centro. Costumava sair de casa com esta bem arrumada, ou então, nem tao arrumada assim; o certa é que saía desta direto para creche aberta aonde outras mães fazem do local uma verdadeira sala de estar comunal. Passei no centro a fim de viver a parte do dia claro. Aqui nesse lugar frio e por demais escuro no inverno, dei de passar a dar valor ao sol, as horas iluminadas por essa estrela.

2 horas da tarde nenhuma viva alma solta na rua. Algo estava estranho. Ao pé da catedral, 2 meninas lindas loiras uniformizadas de policia conversavam; não, papagaiavam. Possivelmente, sobre o final de semana, uma com a outra. Nesse momento as interpelei:

–       Que se passa por aqui? Parece que Hollywood veio nos prestigiar.

–       Quase isso… – uma delas respondeu.

Continuei a caminhar e disquei imediatamente pra o meu marido. Bateu forte nesse momento viver marginal. O que havia acontecido historicamente a 1km da minha casa? O tal ocorrido havia acontecida as 8 h da manha daquele dia, e desde então na tv e rádio passavam novos flashs de reportagem e nada disso eu pude seguir, atrelada a novas atividades.

A sensação que eu tinha era como se estivesse ilhada. Infiltrar no meio norueguês era a idéia que cobiçava e explorava da melhor maneira possível. Pois as barreiras eram todas, minha única opção naquele momento era estabelecer um bom relacionamento com mães do meu bairro. Gostaria de dizer que elas tinham o mesmo perfil que eu tinha, haviam passado pelo universidade, haviam morado fora da Noruega, tinham 30 anos de idade. A maioria mesmo era mais nova e não pensavam jamais morar fora da Escandinávia. Mais tarde 90% desse grupo que primeiro me acolheu em Stavanger deram no pé desse bairro ou dessa cidade aqui. Estavam começando a vida e de fato aqui não é o melhor lugar do mundo para isso, se você não é um engenheiro.

Meu canal com a minha língua se resumia quase que exclusivamente com a internet, que eu forcava uma barra com um pouquinho de amigos nerds. A outra forma era lendo livros que eu mesmo importava a cada nova volta ao Brasil ou catando na biblioteca. A mais esdruxula forma era escrevendo cartas para familiares e amigos que nunca foram respondidas. Naturalmente, perde-se interesse nesse esporte.

Eu sabia que eu iria perder um monte de amigos que demorei um tempão pra achar no Rio e iria levar mais tempo em Stavanger ainda pra achar uma galerinha pra tomar um vinhozinho descontraído e comentar o ultimo filme do Tarantino. Sobre perda e adesão está sendo bem melhor do que eu esperava, não perdi boa parte dos cariocas e em Stavanger há sua safras.

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A vista para o macico do Sumaré da Tijuca

Sobre todos os meios que frequentei no Rio, acho que o meu prédio foi o mais estranho, as pessoas eram diferentes demais para serem tão entrosadas, sem dúvida a grande culpada disso deveria a ser a bola. Não havia um canto verde naquele playground, só a vista para o Sumaré.

Uma menina que praticamente nunca aparecia no play era a Priscila. A conheci pelo elevador. Ela era também de 1974, mas não era nem do Palas, nem do Batista Shepard, nem do Sao José, que raio de colégio ela era? Depois de muitos anos ela veio me dizer que era da Aplicação da UERJ. A Priscila cai naquela categoria de amizades, até quer que essa pessoa seja o seu melhor camarada, mas a pessoa tem muita mais coisas interessantes pra fazer do que ficar dividindo experiência com uma outra. Acho tudo isso muito válido. No caso dela foi que um dia ela resolveu se aproximar de mim depois de alguns anos da gente se esbarrando no elevador, no shopping & no clube desportivo. E o Syd Barret foi o pivô dessa fase.

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“Copa Palace Hotel” de Juarez Machado – refletindo a elegancia, a música e o aperto da noite de Copa e sua sociedade

Era super difícil achar gente para ir a clubes noturnos de Copa & Botafogo, as respostas mais populares das minhas conhecidas eram:

–       Nao tenho roupa pra isso,

–       Tenho medo,

–       Deve ser caro,

–       MEUS PAIS NUNCA VAO DEIXAR,

–       Nao é o tipo de lugar que eu gosto.

Da primeira vez que a convidei para ir a Dr. Smith ela topou e ainda adicionou já ter ido ao local. Cada vez que a encontrava a única coisa que falava era do curso de psicologia a UFRJ. Seus 2 pais eram psicólogos. Eu tinha orgulho do pai dela por ela. O cara era a imagem de alguém de bem com a vida, de um vencedor nos negócios e no amor. Porra, irmao do cartunista Ique. Ele sorria para todos, não se misturava com os outros moradores, corria todos os dias de manha.

Depois eu fui entender o que aproximara ela gostar do Syd ou desgostar do filme “The Madness of King George” estava intrinsicamente ligado a valorização ou desvalorização da atividade da psicologia.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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