O mistério dos três beliches


A turma de 1994 de estudantes de arquitetura e Urbanismo era bastante coesa quando eu entrei na Universidade Santa Úrsula apesar de que fosse de praxe fazer divisões em pequenos grupos pra melhor aproveitamento dos estudantes da matéria leccionada.

Naquele momento fiquei impressionada pela falta de heterogeneidade desse grupo, havia pelo menos 24 “Flavias” num total de 60 novos alunos. Todas as meninas, que diga-se de passagem eram mais de 60% desses calouros, sem exceção usavam um lencinho no pescoço a la Grace Kelly, uma moda que só veio a surtir efeito no resto da cidade quando saiu de moda entre as estudantes da USU, quem sabe, uma coisa explica a outra.

No final dos 4 primeiros meses, uma menina que também se chamava Flavia, resolveu dar uma festa de confraternização na sua casa na serra. Ela reuniu metade dos estudantes no seu luxuoso chalé.

casarao
Casa na Serra das Araras – …è pau, é pedra, é o fim da picada. Por que uma piscina tão pequena pra tanta escada?

Araras no estado do Rio não é um subúrbio de Petrópolis, é uma cidade “satélite”, do qual muitas pessoas de poder aquisitivo alto tem verdadeiras mansões incorporando o estilo cottage europeu ao country sul-americano. Tudo muito lindo, espaçoso e sobretudo com muita madeira de lei. Muitas das vezes casas em lugares como esse são maiores que seus apartamentos localizados na cidade do Rio.

Voltando a festa, como todos iam dormir ali? Nem todo mundo dormiu ali, alguns tinham até casa nas proximidades. Mas a maioria estava de caso pensado de ficar no local todo o final de semana, como era a principio o meu caso também. Para mim e outras meninas menos ligadas a essa garota foi designado um dos dois casebres anexos para visitantes. Cada casebre era equipado com um banheiro, 3 beliches e uma cômoda, porém calefação não havia.

Por acaso nesse final de semana o estado do Rio de janeiro foi assolado pela frente fria vinda da Argentina – sim, costumeira de junho – e durante essa noite os termômetros então marcaram por volta dos 6 graus célsius por ali. Era um número estranho, que eu só havia visto antes na própria Argentina.

Eu acabei por ficar na parte de cima do beliche. Acho que porque a maioria queria dormir em baixo por medo mesmo. Afinal só havia experimentado isso de dormir em cima num beliche em Cabo Frio a muitos anos atrás. Mas eu dormi muito mal. A garota que dormiu ao meu lado na parte de cima do beliche dela tinha asma, foi uma sinfonia de roncos. Um breu danado, no final das contas o seu olho até pegava o costume com as trevas, e acabei por notar a garota magrinha sofrendo com uma respiração escrota. Coitada, será que mexendo a cama dela, ela relaxaria? Eu fiz uma vez, deu certo. Depois de um tempo voltou o ronco, aí mexi de novo a cama, ela parava. E quase a noite inteira foi assim, dormindo isso se torna uma atividade mecânica.

casebreVeio o café, essa garota asmática estava renovada, nada pareceu tê-la atormentado durante a noite. As outras meninas, por outro lado, estavam todas meio caladas, cabisbaixas, não estavam passando um clima bom não. Nós fomos jogar, havia uma sala de jogos nessa casa de campo.

Num momento lá, alguém tocou no assunto de “assombração”. Peguei o papo no meio. Uma menina que dormiu no casebre também me adiantou apontado para aquela garota que dormiu no beliche do meio na parte de baixo. Essa garota em questão jurava que houve um poltergeist com a cama dela. Ela continuou, durante a noite inteira a cama se mexia fazendo muito barulho e essa garota estava se cagando. Ela chegou a chorar e acabou acordando as garotas que estavam do lado dela. Chegou uma terceira menina e comentou que não ouviu nem viu nada de errado, mas não dormiu também, sofreu com os roncos da garota do beliche do meio. Esta última a se unir a conversa estava no terceiro beliche na parte de cima. Cheguei nela no sapatinho pra perguntar o que ela estava fazendo para cerrar os olhos já que a garota do beliche do meio roncava exacerbadamente. Ela mexia a cama – a mesmíssima coisa que eu fazia. Na verdade, mexíamos muito a cama. Um, a cama era antiga e pesada portanto rangia; dois, era também mal feita, um lado batia o pé mais forte que o outro…

Eu achei então que o final de semana já tinha dado o que tinha que dar e piquei minha mula.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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