Fado de Realengo


Esse texto aqui é puro e simplesmente para arquivar um ocorrido de muito tempo atrás, indireto com um membro da minha família; do que fazer analogia, simpatia ou controvérsia. Esse meu familiar manteve para si um drama trancafiado a 7 chaves numa quantidade enorme de anos e num passe de mágica dividiu essa relíquia comigo.

Quando você vê o outro errando é que você olha pra o seus próprios erros e talvez passe a fazer os retoques. Um erro muito sinistro que abateu uma mulher uma vez, fez eu tomar um certo rumo na minha vida. Passei a comparar a estória dessa mulher em desgraca, do qual eu nao conheci, às mudanças de comportamento em outro ambiente da cidade Maravilhosa que eu estava mergulhada.

marilande realengo

Minha tia Lande no quintal da casa dela em Realengo

Quando a minha tia Lande tinha cerca de 10 anos ela morava em Realengo. Meu avô também morou um bom tempo com eles até ele montar sua própria família e se mudarem pra Sao Cristóvao. Nos anos 40, nesse bairro distante é mais que claro que não havia creche e as crianças só saiam da barra da saia da mãe quando começavam a escola com 7 anos. Mas a irmã do meu avô, a Dona Maria Aleida Mercon, já havia investido na vida dela pra ser modelista e foi cursar no melhor do centro do Rio. Aproveitou seu irmão caçula, que não pagava por casa e comida, pra ser a babá de suas filhas. Ele não ficava ocioso e aprendia muito. Assim como a própria Dona Aleida havia tomado conta dele na década anterior.

uma casa de realengo

Uma estação do governo em Realengo cerca década de 1910

Numa ocasião quando eu tinha essa idade de 10 anos nos anos 80, perguntei o que a minha tia Lande Mercon recordava de Realengo, como era esse lugar. Eu nunca fui a Realengo. Eu pensei que, naturalmente, um dia poria os meus pés por lá por alguma razão, encontrar amigos para estudos ou desfrutar de uma festinha de alguém. Não, nunca aconteceu. É parece que de alguma forma depois de ter ingerido essa história todo o distrito, eu quero dizer todos os arredores da própria Realengo desapareceram do mapa da cidade do Rio de Janeiro. O urbanismo mudou, os empresários se concentraram em atividades na Barra, a cidade guinou para outra direcção nessa década. Dada essas circunstâncias fui uma ávida visitante da Barra, um bairro que vir se erguer sem pedir, e até hoje não sei o que será o Realengo.

Refiz a pergunta focando o meio social para não ficar assim abstrato pra mim. Ela me disse que uma estória “perturbou” ela boa parte de sua vida. Uma moca da rua dela, a mais bonita, a mais prendada, a mais divertida, a mais moderna, a mais doce com as crianças; havia entrado em depressão. Depressão mesmo de não sair de casa e tentar o suicídio. A moca do qual a minha tia ainda recorda o nome, passou dos seus 15 anos de idade aos 30 noiva desse mesmo cara que não morava nesse bairro, nem no Rio de Janeiro. O cara era cacheiro viajante, e a tia Lande não sabe dizer da onde ele vinha exatamente, porque essa estória foi ouvida e não vivida pela minha tia, apesar de que ela conheceu bem o protagonista e viu o antagonista.

Mas como se deu o desmanche? Um dia o cara apareceu como de costume numa sexta feira para ver essa vizinha da minha tia e mostrou o seu lindo anel de casado no dedo:

–       Me desculpe, mas eu me casei com uma moca mais nova lá da minha cidade.

A minha tia termina a estória dizendo que candidatos não faltavam pra ver essa garota lá da rua dela de Realengo durante todo o tempo de noivado. Muitos mocos mesmo batiam na porta dela convidando ela pra jantar, para ir a Paquetá ou a Quinta, quem sabe Copacabana & Urca e ela recusava, ela era fiel.

Depois dos 30 anos de idade como ficava a vida dessas mocas no subúrbio carioca? Eu resumo numa locução só muito proferida por lá: MAL FALADA. Se uma mulher, antes de nós contemplarmos a revolução de costumes dos anos 60, tivesse chegado a idade de 30 anos e se mantido solteira, ela sera marcada com o adjetivo singelo de ‘encalhada’ toda vez que se referissem a sua vida social. Mas não fica só nisso ainda tem ser marginalizada também, porque se assume quando você passa 15 anos namorando o mesmo homem é porque você faz mais do que pegar na mão.

Este é o cerne da questão, não se sabe se ela dormiu com o cara ou não. A sociedade vê tudo de forma maliciosa e julga apenas o desempenho da moca neste drama. Será que alguém pode realmente afirmar que ela chegou aos finalmentes com o cacheiro? Ela talvez apenas esperou e esperou que contraísse o matrimônio, mas o vendedor viajante desde o início nunca que iria se casar com uma garota da cidade grande? O cara arruinou a vida da garota de Realengo e passou ileso.

Mas as histórias de romances com os viajantes vendedores quase sempre terminavam assim, né? Quando minha tia me contou essa história, eu já tinha visto, pelo menos, mais 2 enlatados para TV de escritores nordestinos e 50% destes eram do baiano Jorge Amado que sempre gostou desse tipo de personagem que o Cacheiro Viajante eterniza na cultura brasileira. Faz-me quase ter a certeza de que ela era uma menina muito ingênua assim como os pais dela deviam ser. Apesar de deverem ser também bons e amáveis ​​pessoas que permitiram esse homem entrar no seio da família deles e com um pouco de respeito, pelo menos, esse cacheiro viajante deixou um bilhete de adeus. Ele podia ainda mais maldosamente estender essa história a seu bel prazer.

Os Mercons se mudaram pra o Rio Cumprido e dessa garota só esse fado guardaram.

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3 comentários sobre “Fado de Realengo

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