Meu avô não era uma pessoa de sorte


Tudo ao seu redor teve o selo de qualidade da falta de habilidade administrativa brasileira. Na semana do meu aniversário em 2013 descobri que ele era muito possivelmente neto de imigrantes italianos. Foi bom ter descoberto isso o que fez crescer alguns questionamentos.

Giovanni Coppo, provavelmente Lombardo, chegou ao Brasil em 1891. Este homem veio acompanhado com uma moca chamada Anna Lima e seus 3 filhos. Acredito que o Giovanni deve ter morrido de cólera ou de fadiga logo, pois um quinto dos colonos morreram pela negligencia do estado com a massa de agricultores europeus que chegaram as serras de clima tropical. A condição dos colonos no estado do Espirito Santo era tao lamentável que em 20 de junho de 1895 o governo italiano proíbe a emigração italiana ao estado. Mas isso nao impede que ainda deporte famílias italianas no porto de Vitória mais um par de anos.

Anna Lima sem o Coppo pariu a tadinha da Eufrozina em 1892 no ano seguinte de sua chegada em Muniz Freire. E a mae do vovô depois de casada se tornou Eufrozina Lima Cassa. O Coppo sumiu, talvez erroneamente no cartório.

O seu Chrizanto nunca, absolutamente nunca, mencionou Muniz Freire, lugar onde  seus irmaos todos nasceram. Na verdade era difícil achar alguém no Rio de Janeiro que tomara conhecimento de tal parada. Ele se lembrava de Cachoeiro de Itapemirim, á sim, ele deve ter ido a escola, papeado com muita gente e sonhado com o mar que tanto amou.

Depois,  fuçando um pouco mais a limitada fonte que tenho, descobri que uma mulher chamada também Coppo veio sozinha para o Brasil no último navio disponível para o porto desse estado, em 1897.

A Ana Lima não podia viajar sozinha com as crianças. Ela deveria apresentar o “chefe” de sua instituição familiar. Nas listas de navios que visitei em torno de Internet, uma das coisas que me chamou a atenção foi a inscrição “patrão” – patri families – chefe de família.

Colono italianos provenientes de Muniz freire, Cochoeiro de Itapemirim ou Castelo na construcao de Colatina
Colono Italiano em Colatina tendo acabado de matar uma onca, que serviria de refeicao. A semelhança com o meu avô é íncrivel e entre os colonos citados nessa operacao estava o nome Coppo.

O mais positivo nessa pesquisa da lista de navios foi que quase todos os adultos sabiam ler e escrever, se viessem do norte da Itália. Aliás, 94% da imigração italiana para ES vieram de lá. O governo brasileiro requeriu várias imposições quando decretou o fim do tráfego negreiro e abriu portas a alvejamento da nação brasileira com decretos de quem deveria vir pra o Brasil. Todos os pobres do norte da Italia estavam aptos, um acordo da realeza brasileira com a recém unificada nação. Imposições essas eram que não fossem os malucos, presidiários, defeituosos e mulheres sem moral.

Acho que foi tudo muito injusto com a Anna como um colona falida numa colonia fiasco, mas minha intuicao diz que foi pior com sua caçula, a Eufrozina, nem pai tinha e deve ter perdido a mae sedo. Pobreza é uma merda só. Como você pode determinar que esse filho vai herdar a fazenda e o outro ser condecorado pela sorte? No caso do meu avô ele deve vir de uma longa lista de antepassados caçulas, nunca herdou nada, a não ser, amnésia.

Coppo
Vínicula Coppo na Lombardia

Giovanni Coppo pode muito bem ter sido um caçula. Verifiquei seu nome que aponta a um famoso produtor de vinho na Lombardia datando a origem da firma  1892 – que coincidência!

Cazzo! Vai procura da tua sorte! Eu, o mais velho, fico com a terra. – teria um dia ouvido isso.

Surgindo a oportunidade de ganhar terra no Brasil muita gente como esse Coppo nem sequer pensou uma vez.

Pulando de volta para a Eufrozina, ela teve que se casar jovem para encontrar um lugar para ela própria. Ela trabalhou toda a sua vida para o seu marido, mas no final, em vez de uma pensão pelo seu bom desempenho, a expulsaram de sua própria casa. Eu não sei como ela conseguiu ficar grávida depois de se tornar viúva, entendo que haja estupros por aí ou a simples possibilidade de ter tentado ganhar um dinheirinho pra casa e suas crianças. O meu avô nunca soube quem foi o seu pai. Trabalho de pai ficou nas mãos de seus irmãos e irmas mais velhos.

Após 5 anos da morte de Eufrozina em 1939, 2 das irmãs do meu avô, uma acompanhada do marido e sua recém nascida filha, mais o irmão mais velho, vieram todos para Rio de Janeiro. Curiosamente, o único irmão que ficou no estado do Espírito Santo jamais foi visto novamente.

No Rio, com 16 anos de idade em 1942, o meu avô tentou corrigir alguns documentos para começar a trabalhar, nao tinha nenhum documento sequer. Imagino que ele ouviu em alguma padaria ou bar que o jeito mais fácil e mais barato de fazer novos documentos é nas forças armadas. E foi pra lá, no meio da guerra. Os militares fizeram seus documentos, ele próprio sugeriu o nome Camargo e a localizacao Cachoeiro, porque nenhum papel ele tinha, nenhum dos de seus avós, nada da sua mãe. Pergunto-me o que as suas irmãs guardavam?

Ele deserdou. Se entao ele fosse a guerra, ele estacionaria na Lombardia. O possível lugar da onde o avô dele havia emigrado. Eu não acredito de jeito maneira que ele sobrevivesse ao exército.

A maior sorte dele foi ter conhecido a Dona Alzira, que tinha muito em comum com ele, porém ela teve encantadores avós portugueses.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

Categorias especulacao, genealogia, memóriasTags, , , , , , , , , , , , , , , , , 2 Comentários

2 comentários sobre “Meu avô não era uma pessoa de sorte”

  1. meu pai, o Chrizanto, como descrito no texto, não teve mesmo muita sorte econômica e teve uma vida sofrida por injustiças desde q vendia pastéis até ser um exímio alfaiate (eu só queria vestir o q ele fazia ou consertava) , mas teve a sorte de ser extremamente inteligente e criativo, dotado de capacidade p amar e isso não tem preço!
    Além da minha mãe ele amava o mar!
    Com toda amargura q seguiu sua vida, deixou saudades.
    Com todas as truculência da vida sofridas e causadas por ele mesmo, seu afeto e senso de justiça imperou e perdurou sobre nossas vidas.

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