Meu avô não era uma pessoa de sorte


Muita coisa no correr da sua vida levou o selo da falta de habilidade administrativa brasileira. Hoje, mesmo com mais alfabetizados e com níveis superior de estudos no serviço público, a máquina capitalista criou uma distancia desses serviços com os clientes, os cidadãos.

Movimentos anti-sociais típicos usam exemplos fora da regra para elevar seus argumentos, um clássico deles: “um dos meus conhecidos me disse que…” o que é diferente de “os estudos mostram”. Os estudos trabalham com o que a maioria das pessoas fazem, números e repetições de costumes de todos nós; pessoas como você e eu. Nesse texto exploro elementos em volta da familia do meu avô paterno. Se tratando de genealogia, é óbvio que se precisa checar os estudos demográficos, sociais, históricos, o que foi deixado em documento nos arquivos que COMPLEMENTE o que a família não guardou em papeladas dos ofícios que fizeram parte, dos trajetos que tomaram.

Na semana do meu aniversário em 2013 descobri que meu avô era, possivelmente, neto de imigrantes italianos. Foi bom ter descoberto isso. Contudo isso só fermenta mais questionamentos.

O nome do avô do meu avô, dado essa última pesquisa geograficamente limitada, se chamava Giovanni Coppo. Ele era provavelmente Lombardo, chegou ao Brasil em 1891 no navio Adria. Ele veio acompanhado com uma moca chamada Anna Lima e seus 3 filhos. Parece que o Giovanni morreu de cólera/fadiga logo que se assentou na serra (menos de 1 ano depois de sua chegada). Um quinto dos colonos morreram pela negligencia do estado com a massa de agricultores europeus que aportaram no Espírito Santo e subiram a pé 170km a procura do seu próprio espaço de terra. A condição dos colonos nesse estado era tao lamentável que em 20 de junho de 1895 no ato de Prinetti, o governo italiano proíbe a emigração italiana ao estado. Essa interdição só pegou num par de anos. Enquanto não cessara, o deporte de famílias italianas ao porto de Vitória continuara.

38f500aec8d32b7470b91eca9f0fffc2--boston-massachusetts-dalmatiansA Eufrozina, mãe do meu avô, nasceu em 1892. Ou seja, no ano seguinte da chegada da Anna Lima e do Giovanni Coppo em Muniz Freire. Meu avô, o seu Chrizanto, nunca mencionou Muniz Freire. A cidade onde ele próprio e seus irmaos todos nasceram. Um lugar pouco conhecido. Se ele mencionasse algo da sua infância, relataria Cachoeiro de Itapemirim, aonde frequentou uma escola; trabalhou pela primeira vez, sem instrutores, sem ninguém que o apoiasse num dia ruim de vendas, e que na volta pra casa de seus irmãos, diante daqueles vales esverdeados, sonhara com o mar que tanto amou.

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2002, pintura de Guilherme Mercon

Muniz Freire foi o Governador desse mesmo Estado de 1892 a 1896 e 1900 a 1904. Tirando por base do que consegui ler sobre essa personagem da história política do país, tomei que esse cara deveria ser um Toninho Malvadeza/um Paulo Maluf/ um Cabral, mais um oligarca radical, clássico Coronel dos livros da literatura baiana. Deixou o estado num atraso/ retardamento enquanto seus vizinhos progrediam elevando o país, um atraso que se reflete nos dias de hoje. Ainda assim, era renomeado em altos postos, era um nome popular no estado, se reelegendo com facilidade. Seus pais, seus irmãos e cunhados todos metidos em política, todos de famílias aristocráticas, todos ao seu redor eram barões de Café que foram obrigados a deixar o sistema escravocrata. É claro que ele trabalhava pra esse Status Quo, fora pra isso que se formou em direito, pra por gente pobre, gente em necessidade urgente, como novos escravos. A deixa eram os imigrantes italianos. Ainda hoje tem gente cara de pau/ ou muito mal informada que se refere ao Muniz Freire como um homem que trouxe a mão de obra estrangeira ao estado (nos embranqueceu!) – não,  queridos – ele escravizou colonos e passou por cima de regras e atos. Outro capítulo que me causa desconforto na leitura sobre esse vulto, é que como senador no Rio, deu um petit enorme na discussão do voto feminino, atrasando o país em 20 anos, por causa desse merda. A cidade muda de Rio Pardo para Muniz nos últimos meses do seu primeiro governo, pra? Pra afixar o nome dele!

Fuçando ainda mais, descobri que uma mulher chamada também Coppo veio sozinha para o Brasil no último navio disponível para o porto desse estado, em 1897. A Ana Lima não podia viajar sozinha com as crianças. Ela deveria apresentar o “chefe” de sua instituição familiar. Nas listas de navios havia sempre a inscrição “patrão” – patri families – chefe de família.

Colono italianos provenientes de Muniz freire, Cochoeiro de Itapemirim ou Castelo na construcao de Colatina
Colono Italiano em Colatina tendo acabado de matar uma onca, que serviria de refeicao. A semelhança com o meu avô é íncrivel e entre os colonos citados nessa operação estava o nome Coppo.

Nessa lista também observei que quase todos os adultos sabiam ler e escrever, se viessem do norte da Itália. Aliás, 94% da imigração italiana para ES vieram de lá. O governo brasileiro requeriu várias imposições quando decretou o fim do tráfego negreiro e abriu portas a alvejamento da nação brasileira com decretos de quem deveria vir pra o Brasil. Todos os pobres do norte da Italia estavam aptos, um acordo da realeza brasileira com a recém unificada nação. Imposições essas eram que não fossem os malucos, presidiários, defeituosos e mulheres sem moral.

Acho que foi tudo muito injusto com a Anna como um colona falida numa colonia fiasco, mas minha intuicao diz que foi pior com sua caçula, a Eufrozina. Sem pai e a mãe empobrecida, a mercê do julgamento de uma sociedade injusta e abusada. O meu avô deve vir de uma longa lista de antepassados caçulas, nunca herdou nada, a não ser, amnésia.

Coppo
Vínicula Coppo na Lombardia

O próprio Giovanni Coppo pode ter sido também um caçula. Seu nome aponta a um famoso produtor de vinho na Lombardia datando a origem da firma  1892 – que coincidência! Surgindo a oportunidade de ganhar terra no Brasil muita gente como esse Giovanni nem sequer pensou 2 vezes.

Pulando de volta para a Eufrozina. Depois de casada perdeu o Coppo e ficou Lima Cassa, talvez erroneamente no cartório, já que seu pai morrera quando ela era pequena e não tinha mais como comprovar a moral de seus ancestrais. Fora forcada a se casar jovem pelo gosto dos seus irmãos mais velhos (talvez meio-irmaos) para encontrar um lugar para ela própria. Ela trabalhou toda sua vida para seu marido, mas no final, em vez de uma pensão pelo seu bom desempenho, expulsaram-na Engravidara em plena viuvez, entendo que haja estupros por aí… O meu avô nunca soube quem foi o seu pai. Trabalho de pai ficou nas mãos de seus meio irmãos e irmas mais velhos, como acontecera com a própria Eufrozina.estacao_ferroviaria

Após 5 anos da morte da Eufrozina em 1939, 2 das irmãs do meu avô, uma acompanhada do marido e sua recém nascida filhinha, mais o irmão mais velho (tio Ademar), vieram todos para Rio de Janeiro. Curiosamente, o único irmão que ficou no estado do Espírito Santo sumiu (cogito assassinato, motivos: impossível de chutar). Dramatizaria numa obra desse jeito: ele, o mais velho, poderia saber quem era o pai do meu avô, poderia se lembrar quem visitou sua mãe ou ordenou a presença dela numa certa ocasião, a ouviu confessar sua mal engrenada manobra. E num belo dia, fora requerer um dinheirinho por ter ficado de bico calado, por ter sido um bom menino, e nessa requisição que constava dinheiro ou até mesmo status, ter levado um tiro, ter apenas sido enterrado após um golpe na nuca, ter sido deletado como uma foto mal tirada.

bda6f47065ff1fb6a729c996bddb1920--trens-No Rio, com 16 anos de idade em 1942, o meu avô tentou corrigir alguns documentos para começar a trabalhar, nao tinha nenhum papel sequer. Ele ouviu em alguma padaria ou bar que o jeito mais fácil e mais barato de fazer novos documentos é nas forças armadas. Ele procurou esses serviços no meio da guerra. Os militares acataram suas demandas, ele próprio sugeriu o nome Camargo e a localizacao Cachoeiro, já que nada  possuía, nenhum dos de seus avós, nada da sua mãe. Pergunto-me o que as suas irmãs guardavam? Sendo nem tao maduras, e com pouca bagagem acadêmica seria muito cobrar também delas tanto.

Ele deserdou. Se entao ele fosse a guerra, ele estacionaria na Lombardia. O possível lugar da onde o avô dele havia emigrado. Não acredito de jeito maneira que ele sobrevivesse ao exército.

Em contrapartida trabalhou sua sorte no Rio e encontrou a Dona Alzira. Ela guardava muitas coisas em comum com ele. Mas ao contrário, sua sorte não estava com seu marido mas com encantadores avós portugueses.

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Meu avô no par de vezes que ele comentou a existência de Anna Lima sua avó, eu tive essa imagem para concretizar melhor o que ele tentou se recompor na sua cabeça 50 anos depois. Essa pintura de Leonardo, “A Vigem, a criança & St. Anna)

Isso tudo é um grande jogo de quebra-cabeca e quanto mais voce junta pedacos mais aparece a dimensao dos buracos. Talvez forcando a uniao de uma peca que nao te diz muita coisa se possa desvendar o que a imagem quer refletir. Quem sabe a moca que veio sozinha nao era irma do Coppo, mas era a própria esposa do Giovanni. Cansada de espera-lo, se lançou ao mar. Fugida de mais erros que acertos. Pode ser que antes não apostara da diáspora como uma resposta as injustiças e geladas de sua terra. Na época da partida dele, estava ela grávida ou seus filhos eram pequenos,  quando tomara resolução de partida é porque um filho morrera, os outros foram deixados aos cuidados de suas irmas casadas ou irmãs de caridade. Instituições mais seguras e até motorizadas naquela sociedade para que crianças cheguem a ser indivíduos que contribuam num propósito para o grupo, do que apenas morrer armado num conflito bélico.

Com a Anna Lima conjecturo que perdera o marido já carecendo de muita coisa, o que sobrara, fora convergido para pagar ao maldito escape no mundo novo. Crescera num ambiente hostil, eram apenas meninas num desses depósitos de gente pobre junto a uma igreja conduzidas por freiras e padres. Sua única forca era seu braço para trabalho, colheita, assar pão & costurar. Ao conhecer esse Coppo no navio durante a jornada de 40 dias se amigara com esse homem prometendo o que podia em troca do nome e proteção. Com a morte dele na serra, ficou ruim, mas o castelo de areia foi completamente arruinado com a aparição da viúva azeitando de vez o futuro da Anna & da Eufrozina.

Como escrevera antes sobre o Eca de Queiroz e sua humanização das curvas da Serra da Estrela no Norte de Portugal, uma conversao entre Drummond de Andrade & Jorge Amado pode descrever o que se passou a Eufrozina & o seu Chrizanto na Serra capixaba.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

Categorias especulacao, genealogia, memóriasTags, , , , , , , , , , , , , , , , , 3 Comentários

3 comentários sobre “Meu avô não era uma pessoa de sorte”

  1. meu pai, o Chrizanto, como descrito no texto, não teve mesmo muita sorte econômica e teve uma vida sofrida por injustiças desde q vendia pastéis até ser um exímio alfaiate (eu só queria vestir o q ele fazia ou consertava) , mas teve a sorte de ser extremamente inteligente e criativo, dotado de capacidade p amar e isso não tem preço!
    Além da minha mãe ele amava o mar!
    Com toda amargura q seguiu sua vida, deixou saudades.
    Com todas as truculência da vida sofridas e causadas por ele mesmo, seu afeto e senso de justiça imperou e perdurou sobre nossas vidas.

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