Eu queria mesmo estar em 1966, quando eu estava em 1977


Queria ver como andavam aqueles que já eu conhecia – identificava – lá na época que estava apagada da minha memória. Apagada nao, inexistia, mesmo que parecesse uma memória fortemente enevoeirada, eu jamais havia vivido. Essa época, na verdade, foi arbritáriamente infiltrada na minha mente através de reportagens, fotos emitidas pela televisao e muita fofoca suburbana.

Passado um tempo, em 1984, eu fiquei ainda mais compelida com idéia de sonhar uma viagem no tempo. Visitar a minha própria cidade em 1966, era a minha fuga predileta.

Eu realmente nao tinha nada a haver com o new wave. Uma vez que todos que eu nao simpatizava muito também gostavam do tal do new wave. Havia claras demonstracoes do gênero onde haviam uma referência aos anos 60. Mesmo assim fazia reservas quanto seu apelo e em alto e bom som respondia a questao: ”qual é a sua banda predileta?”

The Beatles.

_ Tá criando confusao, Flavia? – Alguém dizia.

_ Eles já morreram! – Aquele que possui o questionário se aborrecia.

Nao havia modo de ter uma conversa seletiva com uma galera dessas. Nos anos 90 achei a minha turma.

Todo o sentido de época dourada se fez ver. O sentido de fuga, por sua vez, se desmantelou. Procurei uma razao para estar vivendo do lado de fora do castelo, eu era, naquele momento, um pedaco dos anos 90, seja nas ruas, festas, acontecimentos, instituicoes e histórias do Rio de Janeiro. Mesmo que esse pedaco fosse uma pequena parte simplória coadjuvante.

Em 2003, nao contente em sentir saudade daquilo que nao era meu, deixei a minha cidade a sorte. As vezes me pergunto se fora um gesto de auto-ataque… Ou de medo.

autumn almanak
kinks

Hoje eu sei o que aconteceria se eu tivesse o poder de viajar no tempo, mesmo que fosse uma semana apenas e ver as ruas da Tijuca a Copacabana ao vivo. Isso aqui aconteceria:

  1.  Iria ficar chateada de nao tocar nenhuma musica boa na rádio. Pois tanto em Londres quanto no Rio, o som do Kinks e outras paradas que nós nos amarramos, eram banidas das emissoras.
  2. As imagens da televisao eram péssimas, sem cor, dá uma angustia, tudo demora muito no comercial, etc…, fora falta do celular, poderia me acidentar fatalmente.
  3. Teria que morar num apartamento só para mocas, com horário de recolhida. Visita masculina apenas com prévio aviso à administracao. Essas coisas sem cabimento nenhum, existiam no Rio, na Europa e EUA. Sem sombras de dúvidas, acredito que na Holanda, precursoramente, comecaram a exterminar essas pensöes nos anos 60.
  4. Em suma, iria ver muita gente maneira sumir do cenário de uma noite pra outra.
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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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