Salvador


Toda cidade no mundo precisa ser visitada 2 vezes durante a sua estadia no planeta Terra.

Por diversas vezes tenho vontade de comentar a minha experiência disso ou daquilo em meio a um papo. Passei por uma seleção de experiências clássicas numa visita única à Salvador. Imagino agora se muitas vezes fosse lá, o que ela nao me proveria…

Quando eu estudava na EBA tive a feliz oportunidade de participar de um evento em que reuniria estudantes de Belas Artes de todas as Universidades Federais da União. Nao titubeei. Iria intercambiar, presenciar palestras, participar de workshops dirigidos pela Universidade Federal que nos acolheria.

Os 3 principais problemas do viajante estavam modestamente solucionados.

MORADIA: dormia-se numa sala de aula com outros 20 tantos estudantes.

REFEIÇÃO: apenas o almoço-bandejão estava incluso na oferta do seminário.

TRANSPORTE: Existe uma diferença no aspecto de segurança aonde o todos outros passageiros você sabe seus nomes.

Em anos anteriores, quando em Arquitetura, participei de eventos parecidos em Vitória e em Lisboa. O tempo apagou muito o porquê do evento baiano nao ter sido um grande sucesso acadêmico como vivenciei na UFES ou na Escola Politécnica de Lisboa. Culpo a quantidade superior a 500 estudantes-visitantes no campus.

Sou contra estereótipos mas na primeira parada já no estado da Bahia, café da manhã, o povo baiano me recebe assim:

Lanchonete de estrada, atendente no balcão, eu primeira a pisar na lanchonete.

–       Oi, bom dia, eu gostaria de um misto quente, vocês fazem?

Perguntei

–       Fazemos.

–      O pão frito na chapa com queijo e presunto dentro, né?

–     É.

–     E um Toddynho. AH! Essa bebida eu só quero quando eu acabar o meu sanduiche, ok? Pra nao ficar esquentando…

–     Ok.toddynho

O cara se virou pegou o Toddynho deu pra mim, nao me olhou. Continuei falando:

–  Eu nao vou tomá-lo antes de comer o meu pão e também nao vou pagar por ele.

O cara sumiu e o meu misto apareceu. A caixinha de leite pasteurizado, achocolatado com um velhinho Quaker muito simpático me fitava

…me desculpa mas eu nao vou abrí-lo, você já está quente e já virou Jesuíta.

O sanduíche estava ótimo, assim que eu acabei o cara trouxe o meu Toddynho gelado. Paguei pela refeição sem acréscimos e aconselhei que a outra caixinha retornasse a geladeira, pois estava intocada. O atendente muito gentil e simples me disse:que sinistro

–    Você pode levar para o resto da sua viagem, é de graça, é sua.

Dentro do ônibus tentei fazer do jesuítinha sabor chocolate voltar a ser um Quaker de verdade, dessas terras frias. Acabei o tomando mesmo a temperatura natural, algo que eu achava simplesmente insuportável até então. Na verdade desceu bem, matava meu tempo nos momentos finais da minha ida a capital baiana. Passei a ser mais flexível com as bebidas fora do meu habituado 4 à 8 graus celsius.

Imagino quantas pessoas calotearam o que haviam pedido, apenas 2 funcionários com porca instrução para toda aquela gente que vem em enxurrada no mesmo tempo.

No café da manha do dia seguinte, em frente ao campus universitário, uma lanchonete tipo loja de sucos, o Audrin faz o mesmo pedido substituindo o laticínio por qualquer suco feito na hora das frutas exóticas do NE. Nao é que o funcionário responde pra ele assim na lata:

cafe da manha
A cara boa do café, sanduiche feito na hora e o suco também, com o qual eu peco encarecidamete: SEM ACUCAR.

– Oh, meu rei, toma uma coca, vai dar muito trabalho pra mim fazer o suco.

Fim do primeiro ato.


O Bandejão, todos os dias era feijão marrom. Eu nunca havia provado antes ao longo dos meus 23 anos e que por sinal, cogitei também nunca mais comê-lo novamente assim que voltasse ao Rio de Janeiro. Já estava de bom tamanho 5 dias com essa iguaria.

bandejao
Bandejao com feijao mulato & arroz, salado de cenoura, farofa no canto oposto e o miserável “filé” à milanesa, descendo com um refresco super acucarado de qualquer nota fruta-tropical. Nao identifiquei o verde.

Ao fim de cada refeição restos eram despejados na lata de lixo azul e as badejas empilhadas sobre uma mesa. Quando a pilha estava alta demais ou ela era recolhida ou um aluno com senso iniciava outra pilha. Nao é que havia aqueles sem senso e mesmo já iniciada a pilha de novas bandejas as pessoas provavam a sua sorte ou a sorte pilha até aonde a física dessa torre aguentaria. Num dia desses aquele ruivo gordinho de Sao Paulo conseguiu a façanha numa tacada só de derrubar 100 bandejas de metal esparramando batatinhas pelo chão, quebrando a monotonia do almoço marrom.

Nao caía nada bem esse almoço patrocinado pela federal, tinha carne, desconfiava eu que podia ser bode.

Pegando barca e ônibus municipal que estavam aquém da qualidade carioca, sofri, a parte mais infeliz da inesquecível viagem a Salvador. Nao deixei de levar remédios prescritos contra enjôos. Mas eles sao puro placebo, dão sim, muito sono. Num dia de chuva, pegamos o ônibus cheio e errado. Isso nao é um grande empecilho, ruim mesmo é nascer com tendência a enjoos. Tentei implorar aos populares que fossem misericordiosos e cedessem o assento com janela pois estava preste a sucumbir, tendo meus comparsas, Audrin & Leo, apoiando e explanando melhor essa minha petição. Já planejando soltar do coletivo um senhor entende o recado e logo sede o lugar. A senhora ao lado dele, bem magrinha, bem enrugada da vida, já foi me condenando, soltando os bichos com a minha desfaçatez de repetir a mesma ladainha que estava enjoada e precisava da janela. Ela nao terminou o seu discurso eu vomitei nela querendo achar a janela, contabilizando o total de 3 em toda a estadia no recôncavo. Descemos num ponto a ermo sãos e salvos. Pegamos um taxi e rachamos a despesa que foi em conta 🙂

Gostaria muito de voltar lá mais uma vez, tomar mais cravinhos, ir aquelas praias distantes e dancar nas ruas tricentenárias barrocas ainda conservadas daquela cidade.

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Publicado por: This Leksus

Naturalmente carioca da gema. Levantei a bandeira da união dos estudantes em 1990. Depois que vi que a bandeira era tipo lilás, caí fora, mas mantive contatos do setor cultural aonde fui a curadora por 2 anos seguidos no periódico e da rádio interna. Essa mídia chegava à 2000 estudantes em 1992. Participei de cursos de pintura abstrata com Mollica (1947-2013) e desenho Modelo Vivo com Giancarlo Bonfanti na Escola de Artes Visuais do Parque Laje de 1987-1992 e em outros institutos de arte. Estudei na USU, UERJ & UFRJ, arquitetura e urbanismo, Educação artística & Figurino respectivamente. Meu primeiro projeto foi a fonte do Banco do Brasil com seu logotipo, nas dependências da Agencia I do Banco no Rio de Janeiro. Em 1995, cursei por um breve período a Escola Politécnica de Lisboa, aonde desenvolvi uma tese sobre o Manuelino. Muitas descobertas, e não parei de fazer cursos extras em outras grandes universidades cariocas. Senai Cetiqt, Universidade Candido Mendes, UIS (Noruega). Trabalhei com Alexandre Hercovich para Semana da Moda no Rio em 1997. Nos anos seguintes criei o cenário e costumes para a peça Frida Kahlo no Teatro do Museu do Catete. Nessa época comecei a trabalhar como Dj e me destaquei na área até 2010, quando decidi encerrar essa atividade e me dedicar a gravura & tradução. A partir de 2005, anualmente, faço instalações e exibições de pinturas, desenhos, edições de livros, mosaicos e gravuras. Em 2010 comecei a me infiltrar na área de tradução e interpretação, também como uma ação social. O que faz voltar intensamente para escrita e leitura, e me dispersar pra outras línguas, como dinamarquês, francês, italiano & espanhol.

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